Censores e suas tesouras (por Lufe Lima)

Lufe Lima – Músico

 

Quem cresceu sob a ditadura militar não pode ter outro sentimento a não ser asco quando escuta a palavra censura.Vou dar um exemplo de dois filmes mutilados nas mãos dos censores. Se alguém aqui não os viu, recomendo parar de ler aqui já que vou entregar alguns “spoilers”. Um se chama “Amargo Pesadelo” (Deliverance – John Boorman) e o outro é “Tess” (Roman Polanski). O que estes filme têm em comum? Cenas de estupro, além de serem duas obras primas de dois grandes cineastas que foram cruelmente mutiladas pela tesoura dos censores em situações diferentes.

ImagemAssisti a “Amargo Pesadelo” ainda nos anos 70 no Corujão da TV Globo. O filme conta a história de um grupo de homens que vai para os Apalaches praticar canoagem num rio que em breve desaparecerá sob uma represa. Lá pelo meio do filme, os personagens interpretados por John Voight e Ned Beatty são abordados por dois caipiras armados até os dentes que decidem estuprá-los.

Naqueles tempos de ditadura, a tal da Dona Solange, chefe do departamento de censura, decidiu que a cena de estupro homossexual era muito forte para ser exibida para adultos na sessão da meia-noite e cortou-a sem dó nem piedade. Resultado, os pobres caipiras aproximam-se dos nossos heróis e na cena seguinte estão sendo atacados gratuitamente a flechadas pelo personagem de Burt Reynolds. Dona Solange não só mutilou o filme como mudou todo o rumo da história. No fechar de uma tesoura, os protagonistas passaram de heróis a vilões.

ImagemNeste último fim de semana, resolvi rever “Tess” na Netflix. A obra de Roman Polanski foi nomeada para 14 Oscars em 1979 e abocanhou a três estatuetas, incluindo a de melhor cinematografia. Isso sem falar que ganhou o Globo de Ouro de jovem revelação para a belíssima Nastassja Kinski que nesse filme parece uma jovem Ingrid Bergman de lábios carnudos e vermelhos e com um ar de inocência de arrancar suspiros mesmo dos homens mais abrutalhados da plateia.

Tess é uma menina muito pobre que descobre ser parte da aristocracia. Para ajudar sua família, ela procura um suposto primo rico. Na versão original, o tal primo faz tudo para seduzi-la e quando a oportunidade aparece, ele a estupra. Aqui no país fundado por puritanos, a distribuidora lançou uma versão açucarada do filme: A cena do estupro termina bem antes e quando o primo lhe rouba um beijo, a tela se desvanece e na próxima cena Tess está bordando para seu bebê. Ela passa o resto do filme fugindo do primo que oferece ajudar a sua família quando o pai dela morre. A impressão que se tem é que Tess é caprichosa, ingrata e estúpida por preferir passar fome a ser ajudada pelo ex-namorado altruísta. No final do filme, Tess mata o primo e o filme fica mais confuso ainda.

Juro que gostaria que esses censores enfiassem suas tesouras nos devidos fiofós.

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4 respostas para Censores e suas tesouras (por Lufe Lima)

  1. Bianca Siqueira disse:

    Com estes cortes a “tal Solange ” se consagra estupradora mor. Ela não só violenta a integridade da história como propaga afetos dissociativos e perversos. Nós , brasileiros, embalamos este legado da dissociação e do puritanismo em diversos cenários. Quem sabe, Lufe , esteja chegando a nossa Arte de ouvir boas NOVAS como esta que aponta as discrepâncias e ruídos na tal da REALIDADE! Valeu! .

    • Lufe LIma disse:

      Obrigado por ler e comentar, Bianca. Felizmente ela não mutilou a versão Brasileira de Tess e pude assistir ao filme sem cortes nos cinemas cariocas em 1980; porém, neste fim de semana passado,, eu aluguei um DVD para rever o filme e notei os cortes na versão americana (estadunidense). Infelizmente, aqui nos EUA ainda é muito comum esse tipo de coisa. Apesar de não existir censura oficial, é muito comum remover cenas de sexo dos filmes para que os mesmos não recebam classificação “MA” (audiências maduras) da Motion Picture Association Of America, o que praticamente os baniria do circuito comercial. Isso aconteceu recentemente com uma cena do filme Charlie Countryman, o que deixou a atriz Evan Rachel Wood furiosa. Também fizeram isso com De Olhos Bem Fechados do Kubrick e lamentavelmente eu nunca consegui ver a versão original.

      Infelizmente, repressão sexual é um problema endêmico nesse pais e eles são rápidos com a tesoura. Já a violência é lugar comum e sangue jorrando na tela pode o tempo todo — isso quando algum maluco não entra no cinema atirando na plateia, não é? 😉

  2. Muito boa sua reflexão, Lufe.

    Esses seus dois exemplos dão bem a dimensão dos danos da censura à arte, bem como a qualquer outra área. O censor se acha no direito de, em prol da “moral” e dos “bons costumes”, tornar tudo homogêneo, de conformar uma manifestação alheia, neste caso os filmes, aos seus próprios parâmetros. Assim, ficamos irremediavelmente a mercê de uma padronização muito perigosa, pois ela nos restringe o direito aos múltiplos olhares, estes que sempre nos enriquecem.

    Abraço

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